Sexta-feira, Setembro 19, 2008

A vida que se vai

"Caio se levantou sobressaltado da cama assim que o faixo de luz que escapava pela fresta da janela atingiu seus olhos fechados. Ele olhou em volta, aflito e assustado, e encontrou seu quarto sem qualquer sinal de mudança. Sem pensar uma segunda vez ele saltou para o chão e foi até a sala. Ligou o computador e em seguida a tv, enquanto esperava o sistema operacional iniciar para que ele pudesse acessar a internet.

Descobriu que era dia 16 de agosto, quando o apresentador do jornal matinal deu bom dia aos espectadores. Dez dias, ele calculou, dez dias fora, desta vez. Nas manchetes anunciadas pelo apresentador nenhuma pista de que o mundo havia sentido sua falta, como seria de se esperar. Com um estalo mental, Caio tirou a roupa. Uma nova cicatriz no peito, como uma pequena cova. Talvez um tiro. Uma luxação feia na coxa direita, perto do joelho. Marca de uma queda, talvez um golpe de porrete. Ou um envenenamento. Ele lembrava de ter lido que os venenos de algumas aranhas não podiam matar homens crescidos, mas eram fortes pra botá-los pra dormir por dias, e deixavam a região da picada com um aspecto péssimo. Já nú, ele voltou ao quarto, acendeu a luz, e examinou pelo espelho as costas. Um lugar logo atrás do ombro direito estava ralado. Como diabos ele tinha uma marca de tiro no peito completamente curada e ao mesmo tempo um simples ralado de nada ainda lhe ardia? Ele se aproximou mais do espelho, para examinar os olhos. Normais, a não ser pela aparência assustada que eles emprestavam ao rosto.

Caio quase saltou quando ouviu a música que indicava o computador pronto para o uso. O alto-falante estava quase no máximo, ele descobriu. Não era coisa dele, que tinha o cuidado de evitar chamar a atenção dos vizinhos. Ainda pensando nisso, a única pista de que alguém fora ele mexera ali, ele acessou seus e-mails. Na caixa de entrada algumas mensagens novas davam conta de que seus compromissos nos dias que passaram foram honrados, e na pasta de e-mails enviados ele leu coisas que não se lembrava de ter escrito, mas ainda assim lhe eram tão familiares que nem mesmo ele podia dizer que não foram feitas por ele.

A vida continuava a mesma. Seguia sem perturbações. Apenas ele percebia que algo de muito errado acontecia. E a paciência dele estava para acabar."

..:: Trecho de "O Filho da Guerra"; por Bruno Rocha Leão. Todos os direitos reservados::..

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